Dois milhões de toneladas de resíduos sólidos vazam para o mar todos os anos no país, depois de percorrer grandes distâncias através de rios. Os dados alarmantes são da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Atenta à sustentabilidade, que pode ter a transformação digital como grande propulsora, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), em parceria com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), lançou, nesta quinta-feira (1º/06), um edital de concurso para seleção, fomento e aceleração de soluções inovadoras que incorporem tecnologias digitais e contribuam para diminuir a quantidade de plástico nos lagos, rios e mares brasileiros. O lançamento contou com uma mesa redonda entre especialistas.
Para o presidente da ABDI, Igor Calvet, que abriu o evento ao lado da diretora da ANA, Ana Carolina Argolo, através da inovação será possível começar a resolver o problema do descarte de resíduos e do saneamento. “Nós entendemos que soluções tecnológicas têm o poder não só de inovar mas tornar disruptivas e escaláveis várias soluções. Nesse sentido, a importância deste Edital é começar a ajudar na resolução do descarte incorreto do plástico”.
As projeções sobre o consumo global de plásticos foram destacadas pela diretora da ANA. “O consumo deve subir de 460 milhões de toneladas (dados de 2019) para 1,23 bilhão de toneladas, em 2060. Se nada for feito, o descarte de plástico no meio ambiente deve dobrar, enquanto o acúmulo de resíduos em lagos, rios e no oceano mais do que triplicará no mundo todo”, afirmou.
A gerente de sustentabilidade da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), Cláudia Lins falou sobre a situação dos municípios brasileiros em relação ao vazamento de resíduos nas águas do país e a necessidade do envolvimento do setor empresarial para resolver o problema. “Desde 2015 não há dotação orçamentária para política de resíduos sólidos. Apesar disso, 63% dos municípios hoje têm aterros sanitários, graças aos consórcios. Então, há a necessidade de o empresariado entrar nisso de maneira forte, ajudando a implantar um sistema de logística reversa”.
De acordo com a pesquisadora de pós-doutorado no Instituto Oceanógrafo da Universidade de São Paulo (USP), Carla Elliff, a maior parte do lixo no mar – de 80 a 90% – vem de fonte terrestre. “A gente precisa olhar para a questão do lixo no mar, de rios poluídos, de pontos de escape na gestão de resíduos sólidos como algo sistêmico, que precisa ser resolvido em conjunto: governos federal, estaduais e municipais, setor privado e sociedade. Ações pontuais são muito bem-vindas, mas é preciso programas mais perenes”, finalizou.
Também participaram da mesa redonda a coordenadora do Blue Keepers de combate ao lixo no mar, projeto do Pacto Global da ONU no Brasil, Gabriela Otero e o pesquisador do do Instituto de Pesquisa Econômica Econômica Aplicada (Ipea), André Rauen.
O Edital
Composto por dois Editais, o primeiro, da ANA, irá selecionar e premiar nove soluções, no estágio de protótipo, que atinjam o desafio proposto. O segundo Edital, desta vez da ABDI, selecionará três projetos, entre os nove vencedores do primeiro concurso, com o objetivo de aumentar a escala e estimular o lançamento no mercado dessas soluções validadas ao longo das etapas do Edital da ANA.
As melhores soluções para reduzir o plástico nas águas brasileiras poderão ser premiadas com até R$ 440.000,00, considerando a participação nos dois Editais. Poderão participar e se inscrever pessoas jurídicas de direito público ou privado, com ou sem fins lucrativos. A submissão da proposta poderá ser feita por uma única pessoa jurídica ou por uma equipe de diferentes pessoas jurídicas sem limitação de membros.
Os participantes devem se inscrever em uma das três categorias dos Editais:
Social – diminuição da quantidade de plástico nos corpos hídricos a partir da ação dos cidadãos, catadores, cooperativas ou associações de catadores;
Gestão Pública – diminuição da quantidade de plástico nos corpos hídricos pela ação das prefeituras e do Distrito Federal, consórcios públicos, empresas prestadoras de serviço de coleta, transporte, transbordo, tratamento e destinação de resíduos sólidos domiciliares, ou agências infranacionais reguladoras dos serviços de resíduos sólidos;
Indústria – diminuição da quantidade de plástico nos corpos hídricos pela ação das indústrias, desde a geração dos produtos utilizando plástico até a reciclagem ou reintrodução do plástico na cadeia produtiva.
Para participar do Edital, inscreva-se aqui.